quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Amor é amor. Simples assim


            Sinopse:
O que é o amor se não um sentimento que liga duas pessoas ?
O amor tem corpo ?
O amor tem sexo ?

Uma jovem que nasceu no corpo errado e agora é uma mulher, se apaixona perdidamente por outra mulher, mas tem medo de se entregar a esse amor por ter um corpo diferente. Poderia o amor superar o medo ?



Capítulo 1 - Sobre mim

O trem que me leva a Sokóvia cruza as linhas calmamente e enquanto eu me encaro pelo reflexo do vidro, vejo minha figura magra de cabelos longos e vermelhos, encaro meu rosto fino e com pouca maquiagem e me sinto orgulhosa de quem me tornei.
Meu nome ?
Meu nome é Wanda Maxximoff, sou nascida e criada na Rússia com meu irmão gêmeo, Pietro Maxximoff. Minha vida mudou drasticamente nos últimos anos e honestamente, apesar de toda a dor, e todas as lutas que eu tive, minha vida mudou para melhor nestes anos. Quando nasci, eramos Pietro e Wendell Maxximoff, mas por dentro eu sempre soube que era uma pessoa diferente. Eu nunca me identifiquei com nada que havia em minha vida.
Aos meus dezesseis anos eu dei o meu primeiro beijo em uma garota e aquilo foi ótimo para mim, mas só confirmou para mim o que eu sempre havia desejado ser. Eu era lésbica ? Sim, eu era, mas aquelas roupas masculinas, aquele corpo não era meu. Eu era uma alma presa em um corpo que não era meu.  Eu queria deixar meu cabelo crescer, queria pintar minhas unhas e me vestir como uma garota, não um homem vestido como mulher, mas ser quem eu era. Eu, a Wanda, eu sempre me senti Wanda desde criança. Pietro sendo o melhor irmão do mundo, me apoiou desde sempre. Nas primeiras vezes em que eu me chamei de Wanda e meus pais bateram em meu rosto por serem conservadores, Pietro entrou na frente e me defendeu. Desde aquele dia eu não me chamei de Wanda na frente de meus pais, mas Pietro sempre me chamava de Wanda quando estávamos sozinhos em casa.
Aos dezesseis eu me senti sufocada, eu precisava mudar. Deixei meu cabelo crescer, e mesmo que meus pais me odiassem por ele, eu o prendia em um coque que se tornava cada vez mais volumoso.
A primeira vez que eu me apaixonei e cheguei a contar para a menina, Pietro ficou tão feliz por mim, me ajudou no que pode.
Aos meus dezessete eu decidi o que faria de minha vida, e aos meus dezoito. Trabalhava desde os meus 15 e com isso eu consegui juntar dinheiro suficiente. Pagar por aquele silicone mesmo que pequeno e poder mudar meu nome em cartório foi maravilhoso, foi libertador, e o melhor de tudo é que eu tinha Pietro ao meu lado segurando minha mão e dizendo que tudo ia ficar bem. Pietro era a minha força para viver.
Pietro sendo o melhor irmão do mundo, me deu uma camisola linda de lacinhos e cor de rosa como presente e penteava meus cabelos que já tocavam minha cintura já que eu não poderia fazer movimentos bruscos. me ajudava a tomar banho e até mesmo a trocar as bandagens.
Minha vizinha trabalhava no hospital em que eu me operei e como procedimento padrão, eu teria de ficar internada pelos primeiros 3 dias. Vizinhos são um inferno e ela correu e disse para meus pais que eu tinha passado por uma cirurgia, eles não sabiam porque devido ao fato de eu ser maior de idade, eles não assinaram para mim, eles não pagaram nada para mim. E eu havia saído de casa um ano antes, morava sozinha em um apartamento. Pietro queria ter ido morar comigo, mas eu não permiti porque apesar dos meus problemas com meus pais, eu os amava e eles amavam os filhos, e eles já estavam sofrendo a minha falta em casa.
Eu estava com meus cabelos soltos, Pietro me ajudava a trocar as bandagens quando meu pai entrou grosseirão no quarto. Me xingou, disse que eu era um aberração e que a partir daquele dia ele só tinha um filho e que eu nunca mais pisaria em sua casa. Minha mãe não disse nada, aliás ela sempre acoitava o que ele decidia. Eu tentei explicar que eu não era uma aberração, que aquilo era eu e que finalmente eu estava felizes sendo quem eu realmente era, mas meu pai tentou vir para cima de mim, e Pietro como sempre rápido, se colocou na frente e me defendeu. Meus pontos arrebentaram no seio esquerdo. Sim, meu seio porque eu não tinha mais um peito reto e achatado de homem, eu agora tinha seios lindos e delicados. Fiquei com medo de ficarem sequelas, mas graças a Deus não ficaram.
Eu tive de lidar com pessoas me apontando os dedos na rua, pessoas que cresceram comigo e por isso eu me mudei de cidade, e com isso infelizmente fiquei mais distante de meu irmão, mas Pietro me ligava todos os dias por chamada de vídeo para saber como eu estava e quando nos encontrávamos, sempre me enchia de presentes, como maquiagens e roupas. Pietro era e sempre vai ser o melhor irmão do mundo. Encontrar emprego foi um tanto difícil porque eu ainda estava no processo de mudança de voz, e não tinha dinheiro suficiente para comprar os hormônios femininos porque a cirurgia e a mudança de nome tinham sido caros e eu ainda tinha que fazer outra cirurgia e por isso precisava juntar dinheiro.
Fazem quatro anos desde a minha cirurgia. Eu era uma mulher que deixava as unhas crescerem e passava esmalte, maquiagem, colocava meus saltos e roupas femininas, fazia dietas que não aceitavam açúcar e fazia exercícios diariamente para ficar cada vez mais feminina.  Eu não consegui me relacionar com ninguém desde então. Eu vejo mulheres bonitas e tenho vontade de conversar com elas, mas tenho medo de suas reações ao verem meu corpo, aliás eu não fiz e não vou fazer a mudança de sexo. Eu tenho medo de morrer durante a cirurgia. Cheguei a marcar duas vezes, com o dinheiro em mãos, mas não consegui coragem para fazer. Apesar dos meus seios, eu tinha medo. Meu corpo não era feminino como o das outras mulheres.
Estou nostálgica não por não ter mais contato com meus pais e pelo preconceito idiota das pessoas, mas pela noticia que Pietro teve que me dar. Eu vi em seus olhos mesmo que por chamada de vídeo que ele não queria me contar. Meu irmão havia tomado um tiro nas costas e com isso precisava de cuidados. Nossos pais já tinham cerca de cinquenta anos e por isso não dariam conta de carregá-lo para cima e para baixo e eles não tinham dinheiro suficiente nem para um tratamento eficaz para ele e nem mesmo para uma cadeira de rodas. Eu estava indo cuidar de quem sempre cuidou de mim.

Um comentário:

  1. Sempre vou amar essa historia, acho muito incrível como você descreve a vida dela, os problemas que ela enfrenta, assim como alguém na posiçao dela nesse mundo cruel também enfrentaria.

    ResponderExcluir